Negócio Social como solução para organizações

O Brasil tem passado por momentos efervescentes na economia, com taxas de crescimento, taxas de juros se readequando, valorização do Real, entre tantos outros fatores que geram longas discussões e ótimas perspectivas. Economistas discutem se o crescimento é suficiente, se as taxas devem ser mantidas, enfim, um sem-fim de situações impactantes, não apenas no dia a dia da economia, como também afetam as Organizações Não Governamentais (ONGs), que trabalham em ações sociais. 

 

Segundo o Relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil, que já foi prioridade das nações doadoras, vem sofrendo uma redução de destinação desses recursos desde que a economia brasileira passou a dar sinais positivos. De acordo com o relatório, o Brasil registrou uma queda de 25% no período 2005-2010 em termos de ajuda recebida, apesar de a América do Sul ter crescido 18% neste período. Isto acontece porque, hoje, estes países doadores enxergam o Brasil como uma nação que está ajudando outros países, inclusive países europeus, sendo assim, não precisa de ajuda financeira.

 

Com este cenário conturbado e incerto quanto aos investimentos em ONGs no Brasil, por parte de instituições internacionais e localmente, vemos que ainda não há investimentos suficientes. É neste momento que se cria um modelo de negócio social como solução, em que o projeto torna-se autossustentável e gera resultados para investir no próprio crescimento e em desenvolvimento de novas tecnologias.

 

O Projeto CIES (Centro de Integração de Educação e Saúde) busca cobrir uma lacuna na área da saúde que não é atendida pelo poder público, levando exames de média e alta complexidade e pequenas cirurgias possíveis de serem feitas fora de uma instituição hospitalar, como de catarata, por exemplo, a áreas onde a demanda não é grande suficientemente para o investimento em uma unidade de saúde atender aquela especialidade, porém, ela existe e é um problema para ser resolvido. Atende também regiões que há hospitais, mas que as filas de espera são imensas.

 

O caminho é junto à Secretaria da Saúde das prefeituras ou estados, e também com empresas dispostas a investir na comunidade onde está inserida. Para atuar, antes o projeto CIES busca entender a demanda da região para oferecer uma solução adequada a ela.

 

As ferramentas utilizadas pelo CIES para atender os locais onde não se justifica uma unidade fixa são as unidades móveis de saúde. Hoje temos três sistemas móveis diferentes, que são utilizados de acordo com a demanda e localização a ser atendida.

 

A “Carreta da Saúde” é uma unidade móvel com mais de 100 metros quadrados de área construída, onde podemos atender mais de dez especialidades diferentes, como: oftalmologia, cardiologia, mamografia, ultrassonografia, eco cardiografia, teste ergométrico, eletrocardiograma, endoscopia digestiva, colonoscopia, otorrinolaringologia, audiometria, urologia, exames de urodinâmica e pequenas cirurgias. Ainda possuímos um “Box da Saúde”, que, construído sob uma base de container marítimo, é uma clínica para até quatro especialidades. E ainda temos a “Van da Saúde”, para uma especialidade. Normalmente trabalhamos na van com a saúde da mulher (exames clínicos e ultrassonografia) ou eletrocardiografia.

 

Para o Projeto CIES ser autossustentável é fundamental que as especialidades escolhidas tragam sempre um equilíbrio financeiro. Quando firmamos contratos de parceria com o poder público, quase sempre somos obrigados a trabalhar com os valores da tabela de preços do Sistema Único de Saúde (SUS). Para viabilizar o projeto, trabalhamos basicamente com dois focos.

 

A primeira é com o aumento do número de atendimentos para a redução do custo médio por paciente. No ano de 2011 atendemos 12.800 pacientes, com um custo médio de R$ 97,30 por paciente. Para 2012 temos uma meta de atender 54.400 pacientes, com isso reduziremos o custo médio por paciente para R$ 65,20, o que nos permite atender um número maior de especialidades, mesmo as que não são rentáveis por si só, porém não são menos importantes para a população.

 

A segunda forma é atender a demanda de empresas, que buscam investir na comunidade onde estão inseridas, pois podemos trabalhar com valores baseados nos custos reais do atendimento. Há empresas que contratam o Projeto CIES, como a Metalfrio e a Engemet, por exemplo, que investem no atendimento diferenciado para os seus colaboradores, familiares destes, bem a comunidade do entorno. 

 

Este modelo de negócio social traz a capacidade financeira para não depender de doações, crescer, investir em tecnologia médica e cumprir com sua missão de tratar, educar e prevenir, levando saúde a pessoas que necessitam e não teriam acesso a um tratamento de boa qualidade em função de sua condição social.

 

Ricardo Castilho
CEO do Projeto CIES
www.projetocies.org.br
Entre outras mídias, o artigo também foi publicado no Blog Empreendedor Social, da Folha.